terça-feira, 9 de novembro de 2010

Percepção.

Sentada na varanda branca era mais fácil enxergar o horizonte. A pequena moça de cachos louros, que segundo sua mãe tinha lhe batizado de Clara, pois ela acreditava que esse nome seria fonte de luz para toda a vida.

Mas ultimamente Clara havia conhecido a escuridão. Que nada mais é do que a ausência de cor, quando o sol se esconde, e tudo se torna escuro. Mas dali, daquela varanda branca, cercada por jasmins, e um doce aroma de lavanda e camomila, Clara deixava sua mente vagar.

E a mente da menina vagava. Se duvidasse ia parar no Japão em um piscar de olhos. E hoje eu sei, é no silêncio onde tudo se encaixa. Não faz muito tempo que aprendi que é no silêncio que Deus nos fala, que para estabelecer conexões com Deus basta existir, mas é no silêncio onde suas vontades inundam nossas mentes. E no meio de tantas dificuldades, tantas dores e sofrimentos decorridos ao longo do caminho, o que eu tenho convicção em afirmar é: Tudo se encaixa no silêncio, e quanto mais profundo, melhor.

Clara gostava disso, de sentar na varanda, com o suco de laranja com as pedras de gelo derretendo na pequena mesinha ao lado, com o jornal do dia. Ela tentava com vãs expectativas buscar no jornal anúncios que oferecessem o que ela tanto procurava. Mas o que ela procurava? Essa perguntava era a dúvida intocável, aquela mosquito que sempre vem e volta no ouvido, que zumbi tanto que cansa, mas sempre acaba voltando.

Porém ali fora, longe das quatro paredes, e observando o sol, era mais fácil pensar em Marcelo. Sozinha, ela focalizava aquelas palavras que ele tanto rabiscava nos papéis espalhados pela casa, aquelas palavras que ela lia todos os dias, tentando encontrar um significado por detrás delas. Mas que significado teria tudo aquilo? Para que tantas frases feitas indiretas? Clara, como pessoa verdadeira que é nunca gostou de indiretas. Ah, mas sempre soube interpretá-las.

Mas que situação sufocante havia se formado. Impedida de falar, lutando para esquecer. Clara nunca quis causar dor em ninguém. Clara amava Afonso, e o que Marcelo tinha a ver com tudo aquilo?

Certa vez Teresa, a mulher que sempre desfilava com vestidinhos floridos e tinha cheiro amadeirado, foi até Clara. Teresa tinha experiência com essas coisas de dentro, já havia vivido paixões demais, e sempre estava ali para apoiar Clara. Teresa falou, falou, mas ao mesmo tempo não disse nada. Na verdade, Teresa queria que Clara tirasse as suas próprias conclusões.

E vendo de longe percebo que Clara tomou a decisão certa, fez o que tinha de ser feito. É muito fácil falar, é muito fácil opinar sobre tudo, mas só quem está por dentro sabe o que acontece. As pessoas são livres e tem o direito de se expressar. Porém, às vezes as palavras machucam, magoam. Por que não ser direto? Porque não falar tudo na hora exata?

E outra coisa que venho aprendendo é que se dermos ouvido a tudo o que os outros dizem nunca vamos para frente. Essa é a verdade. Fica tudo sempre empacado no mesmo lugar. E é isso o que está acontecendo, é isso o que acontece o tempo todo. Não sou ignorante, e sei ver o que é certo e o que é errado. Muitas vezes levo tombos feios, mas aprendo com cada um deles. E tento tirar lições de todos os meus erros. E sigo em frente. Mas é claro que dói. Fazer o que, assim é a lei da vida. Queria tentar achar uma forma de viver sem dor. Talvez a resposta a essa pergunta esteja se formando dentro de mim.

Por isso, sou inerte a tudo o que me machuca e a tudo o que escandaliza. Palavras duras em horas desnecessárias causam espanto, mas é no silêncio que tudo se encaixa. Vejo que fugi do foco... Agora que desabafei um pouco, voltarei a Clara.

Ela vasculhou todos os momentos, cada acontecimento, todas as palavras. E como boa entendedora que é juntou tudo. Modelou feito massinha de modelar todas as informações que sabia, e aí foi fácil descobrir o porquê de toda aquela confusão. Clara leu nas entrelinhas. Compreendeu que álcool com fósforo riscado vira fogo. E mais do que isso, sentimento escondido atrás de palavras vira tempestade. E por isso tudo, Clara evitou a confusão.

Mas no meio do caos, ela chorou. Derramou lágrimas amargas, porque sempre teve convicção que despertar o amor de outro alguém sem ter intenção de amá-lo também causa decepção. Sobretudo, ela sabia que essas coisas acontecem na vida de todo o mundo, o tempo todo. E o remorso veio depois, quando ela tentou enxergar sua vida por outro ângulo. Logo parou de vagar com a imaginação voltando à realidade.

Pequena moça tão nova e tão insegura. Tão cheia de incertezas. Ela repetiu para si mesma que não tinham rancor de ninguém, mas que seria capaz de atravessar a ponte, apertar a mão de Marcelo e estabelecer a paz. É, tudo o que ela queria era paz. E acabou por compreender que a paz interior só acontece quando existir a paz com o exterior.

Obviamente fiquei de olhos presos a história da moça. E vindo aqui, bem baixinho, agora eu escrevo: não quero magoar ninguém, quero ser entendida, e quero compreender o porquê de todas as palavras. Faço de mim mesma, receptora de sentimentos bons, e quero transmiti-los a todos ao meu redor. E principalmente, aos que me julgam sem entender. Eu sou diferente do que se imagina, é só perceber. Porque eu não sou leviana, como suposto. Sempre fui verdadeira em tudo o que fiz. Mas não gosto de situações embaçadas. Quando a névoa for removida, talvez tudo volte a ficar mais claro. Vou embora agora, fiz o meu trabalho por hoje. E é assim que vou seguir: repousando no meu silêncio, que me diz tudo, sem proferir nada.

[Maria Isabel]

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