segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Navegar no teu abraço.

Você é aquele hiato entre o instante em que eu adormeço e desperto instantes depois ao seu lado, para conferir se ainda continuas ali. É aquele segundo antes da inconsciência do sono chegar. Você é aquele suspiro antes do pulmão se encher de ar e aquele instante em que o ar escapa por alguns segundos. Você é aquela sensação boa ao colocar os pés na areia da praia e esperar a onda chegar. Como aquele momento que nos invade ao acaso e sem perceber. 
Assistimos o mar inundar o quarto, entre nossos braços formando abraços, entre nossa respiração sendo confundida com a melodia do mar. Somos submarinos, somos profundidade, somos pedaços do oceano e juntos navegamos dentro do mar um do outro. Navegamos por horas a fio sem nos cansar, porque tudo o que nos faz quentinhos por dentro nos preenche. Ao procurar seus olhos acabo encontrando seu sorriso, já que o nosso maior medo não é o da maré, mas sim que o dia amanheça. Você me olha e ri como quem precisa salvar o mundo da tragédia que é a falta de alegria, e eu rio porque o mundo ficou muito mais enternurado desde que nos conhecemos.
Deixa pra lá os problemas mundanos, pouco importa os outros. Ao fim do dia sabemos que o cansaço nas pernas valeu a pena, o caminho sem rumo que trilhamos nos rendeu histórias memoráveis. Afinal, temos nossos pés juntinhos de madrugada e o coração em paz. Desculpa por às vezes esquecer minha cabeça no teu peito, mas se pesar demais - cê me avisa - pr'eu te fazer um cafuné e depois voltar de novo.
Agora que as ondas já nos invadiram não há como sair ilesos das marcas que nos causamos. Assim como o mar, felizmente, somos cheios de idas e vindas. Deixemo-nos fluir tudo o que estiver em seu percurso natural. Que a leveza nos inunde e não exista pressa para lançarmos nossa âncora no mar. Ao amanhecer, sabemos que não nos pertencemos, como também somos seres de almas livres. Mas por ventura entendemos que as ondas do mar se encontram em algum ponto lá no fundo. E que a saudade pode nos trazer de volta mesmo depois do dia clarear.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Ventura

Quando esqueci quem eu era foi de fato quando lhe encontrei. Talvez encontrar não seja a palavra certa até mesmo porque eu nada procurava. Mas aí você apareceu e me fez viver – até mesmo indiretamente – dias memoráveis. Ah, se não fosse você...
Caso eu não tivesse esquecido meus olhos sobre você talvez nunca tivesse compreendido como se sentem aqueles que esperam por um olhar durante horas. Você me concedeu a espera, a paciência necessária e a ansiedade que fazia minhas mãos partes avulsas do meu corpo, e o meu coração inflável que oscilava apenas com sua chegada.
 E nesse meio termo entre o anonimato e a esperança de ser vista, você me viu como alguém que chega sem causar alarde, mas que agora deixa, feliz ou infelizmente, um pedacinho meu aí dentro de ti. E vice-versa.
 Se não fosse você não haveria estratégias para chegar mais perto. Mas contigo veio a certeza que encontros e desencontros ocorrem o tempo todo independente da nossa vontade.
 Se não fosse você não haveria aquele dinheirinho guardado dentro do fundo falso do meu armário para o caso das passagens de ônibus de emergência quando a saudade se tornasse intolerável (e que se dane se preciso fosse aturar o senhor pigarreando ao meu lado às sete da manhã falando sobre a inflação). Se não fosse você não haveria as viagens de última hora, nem eu sem a menor noção sobre qual cidade e lugar iria dormir, apenas para lhe ver no outro dia.
  Se não fosse você eu não teria descoberto tantas coisas guardadas em mim que eu nem sabia que existiam. Se não fosse você talvez não fossemos tudo que somos e eu não teria me tornado metade do que sou. 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Versos de rodapé do caderninho de física.

Você me ocorre em uma segunda-feira gelada

enquanto deixo minhas obrigações de lado

para ouvir aqueles barbudos ecoarem para todo mundo ouvir

inclusive você

que eu só aceito a condição de ter você só pra mim 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Parodiando Los Hermanos: é, moreno, tá tudo bem.

Aprendi que são as lições que nunca nos ensinaram em momento algum na escola, com as quais mais aprendemos. Porém, mais do que isso, é justamente no não entendimento dessas lições que mais adquirimos conhecimento. Esse poderia ser um parágrafo de conclusão, mas não é. Pode parecer confuso, mas ao ser lido ao pé da letra facilita a compreensão.  
Talvez não tenham nos ensinado que a vida é cheia de adversidades, situações inusitadas e dias com cheiro de flor. Ninguém nunca nos disse de onde viria aquele vento, o qual faria as cortinas de nossas casas dançarem docemente com sua passagem. Na verdade nunca é possível saber o momento em que se deve abrir uma porta ou janela, às vezes uma brisa ensina, outras vezes não. Embora lá no fundo sempre saibamos. Pode parecer estranho, mas nós mesmos abrimos as janelas e portas sem percebermos.
Algum vento lhe trouxe até aqui, norte-sul-leste-oeste, não sei. Mas em ondas de calmaria desaguou em mim. Fez-me ser nascente e afluente de mim mesma, outra vez. Desaguou em mim porque transbordou tudo aquilo que eu continha e somou sua calmaria com a minha, desanuviando toda aquela necessidade que as pessoas têm em ser tempestade o tempo todo.
Demora mais sua cabeça no meu ombro e sua mão na minha que não precisamos seguir esse relógio, esses mandamentos dos minutos que faltam para o momento acabar. Podemos criar nosso próprio relógio, formar nosso próprio abrigo com um resquício de sol e vento do outono que está se aproximando. Sei bem que o Renato Russo diria: temos nosso próprio tempo, temos todo o tempo do mundo.
Que pena que as crianças não aprendem essas lições na escola. Mas agradeço por te percebido há tempos como ser leve na alma ajuda a atravessar os dias. E agradeço ao sol, que deixa os seus olhos pequenos na claridade a oportunidade de poder dividir com você o silêncio, o cheiro da calma e a paz ao ver uma borboleta passar por nós dois. E antes que eu me esqueça, te olhar e enxergar que na vida o que vale a pena mesmo é ser essência e não aparência. E você consegue transmitir tudo isso quando sorri.
Que presente poder aprender, mesmo sem entender, que dividir mesmo que seja um pedacinho de vida com você pode ser maravilhoso.

[Maria Isabel]

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Que é pra saudade chegar mais depressa.

Não sei ao certo que horas eram, mas pensei em você. Havia sol no meio da tarde, embora o céu indicasse que fosse chover. Além do sol havia uma barraca de caldo-de-cana. Sorri. Sorri por lembrar de você sorrindo ao lembrar da sua infância com gosto de caldo-de-cana.
Mas agora não sei se sorrio ou se choro. Fácil sorrir quando tenho a certeza de lhe ver em breve, mas tão mais fácil chorar porque a saudade entrou no meio antes da hora. E desde que ela chegou qualquer silêncio é motivo de choro. Apenas me recordo do seu cabelo molhado e dos olhos de quem acabou de acordar no seu apartamento às nove da manhã. Nando Reis me entenderia.
Enquanto você passa seus dias lendo as palavras que eu queria ler contigo aí, eu vou dobrando a vida aqui, escutando um blues só para a saudade chegar mais depressa. Doce confusão. Mas fica tranqüilo, nada tão difícil assim que não possa ser revivido.

[Maria Isabel]

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Sobre os ditados populares: antes tarde do que nunca

Somos feitos de instantes, ouvi dizer. Instantes que se propagam na dimensão em que nos permitimos viver, sentir, sonhar e amar. Instantes que nos amarram no tecido dos dias, no decorrer das horas. Belos são os instantes que por serem instantes são eternos. Que bonito tudo o que se propaga assim ao acaso e por instantes tão infinitos dentro de si.
Benditas sejam as surpresas do meio do caminho, como aquela que te colocou no mesmo lugar que eu, por um descuido ou um encontro casual. Que bonito te beijar algumas horas antes do seu avião partir. E enquanto você voava, eu sonhava estar voando ao olhar tudo o que faz com que eu lembre de ti. Você ainda não sabe, mas quem sabe com o tempo eu te diga que abraços demorados e beijos em rodoviárias e aeroportos são vontades imensas que ainda espero viver diversas vezes.
Doce vida que me presenteou com teu abraço calmo, e sem mais delongas como você mesmo disse (com aquela cara de quem esquece a camiseta preferida no fundo do armário porque tem preguiça de lavar): vou-me-lembrar-de-você-quando-pensar-em-você.  
Enquanto isso vê se não demora pra voltar. Somos instantes, e que os futuros instantes venham com você. 

[Maria Isabel]

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Ao fim de tudo, em paz

Enquanto eu lavo a louça e canto distraidamente uma daquelas canções de fim de tarde, observo pela janela aquele menino loirinho que teima em não segurar a mão de sua mãe ao atravessar a rua. E de repente saio de meus devaneios tolos quando escuto a porta do apartamento abrindo, e aquele inconfundível barulho das chaves ecoarem.
- Desculpa não bater na porta antes de entrar, eu sempre esqueço. Vim aqui porque você esqueceu suas chaves, que você me deu, que eram nossas, mas não sei mais.
- As chaves das nossas vidas você quer dizer. Você sabe, a porta do meu apartamento sempre foi sua.
- Você nunca encontrava as suas chaves dentro da bolsa depois de ter bebido umas duas cervejas (o que já serve pra te deixar mais pra lá do que pra cá), quando a gente chegava tarde aqui no prédio. Aí tomei a liberdade de ter chaves só pra mim. Mas agora, são suas.
- Esqueci de dizer que não precisa me pedir desculpas.
- Eu só vim devolver as chaves mesmo, porque eu sabia que você não ia lembrar-se delas.
- Falando em lembrar, vai lá na cômoda do quarto, segunda gaveta, seu álbum de fotos e seu discman estão lá. Agora foi você quem se esqueceu deles.
- Queria esquecer essas coisas que a gente carrega por dentro com a mesma facilidade que esqueço que tem muitos pedaços meus perdidos nesse apartamento.

(e por um momento mordo os lábios pra não dizer que tem mais pedaços seus dentro de mim do que nesses cômodos de paredes lilás)

- Ah, eu to indo. Fica bem, qualquer coisa me liga, minha mãe mandou um beijo.
- Esqueci de novo. Marquei aquela consulta para a sua mãe quarta-feira, fiz um drama e disse que era urgente. Não se esqueça de avisar ela. E vê se fica bem você também, deixei seu casaco azul no cabide do seu guarda-roupa, procura com cuidado que você acha. Só não se esquece de usar ele nos dias frios.
      Assisto você ir embora com seu andar de menino calmo, deixar as chaves da nossa vida em cima da minha mesa de centro, que você trincou quando tentava me ensinar jogar Guitar Hero de madrugada, naquela tentativa de silêncio inútil para não acordar os vizinhos. Escuto o mesmo barulho dos seus passos que tantas vezes esperei voltar a ouvir nos últimos meses. E assim você foi embora, mesmo que definitivamente. E nem se quer deu tempo de lhe dizer que eu voltei a comer direito, as três refeições e até engordei um pouquinho. Acho que você  também ficaria feliz ao saber que consegui voltar a ouvir aquele álbum do Pink Floyd, o meu preferido e que me lembra você, mas dessa vez, sem chorar. 

[Maria Isabel]

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O sol se pôs antes de amanhecer

Há quem prefira observar o passar dos dias através dos meses, mas eu sempre fui guiada pelas estações do ano. Oriento meus sentimentos por cada estação, embora prefira o outono, espero sempre a primavera chegar para plantar um girassol. As estações do ano estão um pouco diferentes por aqui, talvez em uma tentativa de se enquadrar com os sentimentos aqui dentro. A primavera chegou há poucos dias, mas nos últimos fins de tarde ainda pude tomar um chá olhando o pôr-do-sol. E enquanto aquela fumacinha branca vai subindo eu consigo ver nela todas as lembranças. Mas por saber que é inesquecível, não me dou o direito de se quer tentar esquecer.
Enquanto mantenho minha cabeça ocupada ou dou risada das minhas amigas por serem exatamente do jeito que elas são, torna-se mais fácil aliviar o peso da saudade. Mas é sempre mais difícil na hora do pôr-do-sol. Naquele segundo antes do céu ficar laranja e depois ir se misturando com as nuvens e vir àquela outra cor que de tão bonita me dá vontade de chorar.
E esse mesmo sol faz com que eu lembre aquele outro sol sobre nós dois na beira do mar. Você rindo porque eu falava sem parar que todo problema que a gente carrega lá no nosso interior se dissolve ao observar o mar. Eu rio de você por não querer molhar os seus pés no oceano. E você ri de mim por apenas poder molhar os meus pés, quando na verdade queria me perder nas ondas.
E mais uma vez, esqueço de esquecer. E lembro mais uma vez. Só para esquecer os nossos momentos de dor, e sempre te lembrar com ternura, mesmo durante o pôr-do-sol. 

[Maria Isabel]

quinta-feira, 27 de junho de 2013

The truth.

"Airports see more sincere kisses than wedding halls. The walls of hospitals have heard more prayers than the walls of churches."

domingo, 16 de junho de 2013

"Dormir tarde,

acordar cedo
para ficar com sono
dormir a tarde
virar zumbi
e não ter condições físicas ou mentais 
para pensar em você

(e pensar mesmo assim porque nada nada nada adianta)

falta pouco para que eu enlouqueça."