Baseada nos meus silêncios cortantes, nos meus olhares vagos e meus mil corações dentro de um só, cheguei a conclusão que sou uma pessoa incubada. Uma pessoa incubada. É exatamente esse o adjetivo que escolhi para me descrever um pouco. Dizem que todos têm uma personalidade, pois bem, eu assumo que não sei qual é a minha. Então, incubada é tudo o que consigo pensar agora. Porém, como descrever uma pessoa incubada? Vou levando minhas letras, e deixando-as falar por mim. Incubada porque vive muito dentro de si. Penso demais sobre tudo, o tempo todo. Sou capaz de olhar um objeto e tentar adivinhar a composição dele, do que é feito, quanto tempo levou para ficar pronto. Incubada porque vive no mundo da lua, porque é mais fácil se desligar do mundo, quando o corpo pede socorro. Mas nunca consigo. Metade de mim sempre fica pressa em algum canto. Deixo meus sentimentos espalhados pelo chão. Tão nova, e tão cheia de cacos de vidros, de pequenos arranhões, e algumas cicatrizes. Vez enquanto faço curativo, às vezes esqueço que ainda existe, de alguma forma, em algum lugar dentro de mim coisas que eu não queria lembrar a existência, mas acabo lembrando. Sou colecionadora arcaica, e não tenho vergonha de assumir. Guardo tudo, até o que não deveria guardar. Fico remexendo em papéis velhos, brinquedos quebrados só para recordar, só para tentar sentir o quanto aquilo tudo um dia foi especial. Tenho medo de achar perdido entre as minhas relíquias algo que mexa em alguma ferida, em algum ponto meu não cicatrizado, que nem a acupuntura daria resultado. Assumo minha forma de quem tem fome de viver, a minha fragilidade, e a minha extrema facilidade em chorar por tudo o que se perdeu, por tudo que passou por tudo o que existiu um dia. Sou incubada porque não sei deixar de lado o que sinto. Não sei colocar para escanteio o que vive em mim. Possuo a vaga teoria da realidade, aquela que diz que de um jeito ou de outro acabamos lembrando daquilo ou outro. Não posso apagar histórias escritas a caneta. A vida é um papel branco que nos foi dado, e temos o livre-arbítrio para escrevermos nele. Porém, a nossa obrigação é entender que apenas é permitido escrever a caneta, pois tudo gera uma conseqüência. Nem pense, não existe corretivo nessa vida, não existe arrependimento que dê jeito. Depois de algumas ondas fortes que me derrubaram acabei percebendo que uma gota faz sim a diferença no oceano, e uma pessoa também faz a diferença em uma vida. Mas sei que só é possível ser feliz deixando certas mágoas para trás. Jogando fora aquilo que, definitivamente, não nos faz feliz. É, a base está no perdão. Perdoar é necessário, descobri que só posso avançar se perdoar o que me agrediu por dentro. Lá vem, por dentro novamente. Sou incubada, porque vivo no mundo de dentro. Dentro de mim. Dentro da minha cabeça confusa, do meu coração que tem medo de se machucar, do meu coração que se entrega sem pensar, da minha mente boba que não tem medo de errar. Não tenho medo de amar. Deixo isso bem claro. É bom, e faz bem. Tenho medo de me machucar, já me machuquei, e sei bem como é. Muitas pessoas ostentam coisas que não são, e quando não conseguem mais ser o que queriam acabam magoando os outros ao seu redor. Magoam, humilham, pisam como se fossemos de ferro. Eu não sou de ferro, sou frágil e quebradiça. Lembre-se disso antes de me ferir. E se já fui ferida por covardia de outros, perdôo, mas nunca serei a mesma com o dono da flecha que me feriu. Descobrimos as verdades escondidas nas adversidades dos outros. Tem gente por aí que tem medo de sentir, sabe? Medo de se entregar para alguém, medo de priorizar um sentimento. Sabe por quê? Porque tem medo de sentir, medo de ser tocado no fundo. Medo de amar de verdade. Meros mortais, que não dão valor aqueles que estão ao seu lado, ferem os outros, são donos da covardia. Como pessoa incubada que sou escolhi uma única palavra para nominar exatamente o tipo de homem que quero longe de mim: covarde. Homens covardes não assumem o que fazem, passam por você de cabeça baixa depois de umas mancadas, porque não tem coragem de assumir o que fazem. Machucam você, e não reconhecem os seus próprios erros. Como pessoa incubada que sou, quero me manter afastada desse tipo de gente. Incubada porque não sei amar pela metade, não sei sentir pela metade, odeio mentir e mentiras. Faço de mim um porto aberto, deixo as coisas boas entrarem, e expulso os sentimentos ruins. Recolho-me dentro das minhas manias, vivo os meus dramas cotidianos. Mas descubro que sou forte, apesar de tudo, e saio cada vez mais inteira. Se algo acontecer, se eu cair, levanto-me. E não esqueço as mãos estendidas dos que me amam, pois eu também estenderei minhas mãos quando for preciso. Sou composta por urgências de fazer o bem, distribuir abraços. Quero morar em diversos corações, fazer meu puxadinho em cada um, marcar meu território, meu lar nas pessoas que estiverem por perto. Sou incubada, mas procuro exteriorizar sentimentos. Continuo incubada brigando com meus próprios fantasmas. Vou separando o joio do trigo, e lembrando sempre que para ser feliz a cada dia mais, ainda preciso matar certas coisas dentro de mim.[Maria Isabel]
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