Uma respiração leve, um reflexo de olhos verdes no espelho do carro, a camisa xadrez rosa. Talvez fosse isso o que eu pudesse oferecer ao pôr do sol. Ora, é claro que não. Enquanto o sol ia se pondo, o carro corria livremente pela estrada, deixando rastros para trás. E eu, tão pequena, tão singela contemplando o espetáculo de todos os dias. Aquele sol lindo lá na frente se pondo, como quem diz: acabou meu tempo, tenho que ir, mas amanhã venho te ver. E o sol sai assim de fininho, como quem foge de algo. Mas a luz amarelada sempre ficando para trás. E eu, semelhante, sempre indo embora, e deixando os meus pedaços pelos caminhos.
Volto a repetir, eu humana e absorta em pensamentos o que teria para oferecer ao sol? Abrir meu coração ali. E dialogar com ele, antes da luz se apagar no horizonte. Falar dos meus medos, das minhas perdas, das minhas inseguranças. Do meu medo de tropeçar no escuro, no medo de perder as lembranças singelas que minhas amigas me deram. Da minha insegurança de avançar, de tentar um novo passo. Confessar que toda noite vejo o vídeo com as ondas do mar, e fecho os olhos para ouvir melhor, brinco de sentir o gosto do sal na minha boca, e da areia na minha pele. Dizer abertamente àquela enorme mancha amarelada que sou inteira pedaços, memórias e saudade? Saudade. É tudo o que cabe em mim agora. Como um balão cheio de ar, prestes a estourar. Porém estouro aos poucos, choro delicadamente vendo fotos, e querendo que a máquina do tele transporte existisse. Rasgo-me de saudade furtivamente, canto para a melancolia passar. É sempre a mesma coisa, e o mesmo pensamento. Estou a milhas de distância do lugar onde queria estar.
Receio em falar sobre os meus sonhos loucos, sobre a minha vontade súbita de ganhar a vida escrevendo em uma cadeira de praia, na areia em frente ao mar. Enquanto penso com meus botões, o sol está lá tricotando com o gás hélio, e eu daqui da Terra, pensando desordenadamente no futuro. No passado, e fazendo reflexões no presente.
Encolho-me feito uma bola de papel, agarro-me as minhas recordações, fico com a doçura da espera e da esperança. E lá vai o sol fugindo entre os meus dedos, mas nunca deixando de ser a estrela do Sistema Solar. E eu, o que sou? A estrela do meu ser. Pequena, mas com a imensidão do mar, mas é claro, de saudades.
[Maria Isabel]
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