
Já faz muito tempo, não me lembro ao certo quando ocorreu. Estávamos eu e minha avó, no auge da sua melhor idade com seu vestido floral, sentadas na varanda, com as rosas vermelhas do quintal à nossa frente. Minha avó nunca foi de falar muito, mas ela sempre fala com sabedoria e graça. E esse dia foi realmente especial para mim e para as minhas lembranças, aquelas conversas que marcam a vida de quem as escuta.
Falávamos sobre amor, sobre casamentos, casais. Eu sempre fui uma criança atenta aos sentimentos. Nunca deixei escapar nada que me fizesse fazer sentir. Entra ali e sai aqui, dentro de mim existe essa inclinação afetiva e curiosa ligada ao amor e as pessoas. Sou compenetrada em histórias de longa duração, adoro me calar e ouvir aquelas cenas do cotidiano que comprovam que vale a pena viver com mais alma, do que pressa. Vale a pena sentir, do que temer o sentimento. E quase sempre, é bom parar e saber ouvir.
E como menina com fome de palavras e histórias grandes passei a escutar o que minha avó dizia. Ela falava do seu casamento, da sua relação filial no matrimônio. E entre suas palavras, os outros membros da família começaram a interagir com opiniões diversas sobre casar e ter filhos, separação, complicações familiares.
Então, eu perguntei à minha avó por que ela não se casou após ter ficado viúva. E mal eu sabia o peso histórico da minha pergunta, e o quanto aquela pessoa na minha frente poderia me ensinar. A anciã da família fez silêncio, e como sempre faz quando vai falar algo duradouro, junto suas mãos frágeis e enrugadas, penso que cada mancha em sua pele é a construção do tempo e do seu passado. Ela respirou baixinho, e falou em um sopro fino com os seus lábios pequenos: “Minha filha, amor de verdade é apenas uma vez na vida. Existe apenas um amor na vida, um amor que dure. E eu já tive o meu.”
Mal ela sabia ao pronunciar aquelas palavras, que ela não poderia ter me deixado uma lição de vida e uma herança melhor que aquela. Pois a frase pequena e as palavras eternizadas da minha avó ficarão para sempre comigo.
Sendo assim, é um amor desses que eu quero para a minha vida, um amor até que a morte os separe. Tentarei deixar essa lição aos meus filhos e netos, e lembrarei sempre da serenidade dos olhos azuis e brilhantes da minha avó ao pronunciar as palavras que nunca sairão da minha vida, e que me ajudaram a formatar os meus conceitos sobre o amor, aquele de uma vez na vida, fotografado pelas flores no quintal.
[Maria Isabel]
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