
Entre a jarra transparente com lírios do campo, e o velho birô que pertenceu à quinta geração de minha família distante, eu me peguei pensando em você. Ainda lembro aquele dia quando você brincou com a minha boa e velha mania de ter flores em todos os cantos da casa. Sorrindo, você me disse que os pontinhos cor rosa claro nas pétalas dos lírios representavam o meu olhar. Impossível descrever a felicidade que senti. Vez por outra quando chove, lembro de você correndo no calçadão com meus livros na mão. Aquele dia que esqueci minha coleção de livros novos na sua casa, aqueles livros que você disse que nunca iria ler, porque se lembraria de mim quando estivesse distante, no hemisfério norte do mundo. Pensei em lhe escrever uma carta, não dessas cartas que começam com data, vocativo, corpo, assinatura. Queria jogar as palavras lá. Engraçado, logo você com a sua visão problemática sobre as minhas frases inacabadas. Sou meio desalinhada. Começo a falar e acabo esquecendo onde quero chegar. Você sempre ria quando eu brincava de trava-língua, e dizia que meus diálogos eram iguais tempestades. Daquelas que o céu fecha, tudo fica negro, e depois abre o sol, o arco-íris, entende? Pois bem. Da última que lhe vi, esqueci de lhe pedir o endereço. Não me acostumei com a idéia que entre nós dois existe um mundo de diferenças. Ora pois, é enorme o oceano que nos separa. O nosso último abraço embaraçoso, no meio daquela multidão, à espera do trem das três. Aquelas vozes em volta de você. Fiquei com inveja, e passei a amaldiçoar todos os olhos que podem te ver. Todos os ouvidos que podem ouvir a tua voz, que tem gosto de mel e hortelã sussurrando no meu ouvido tarde da noite. Mordo-me de ciúmes, e quero morder todas as mãos que podem te tocar. Sinto um enorme ódio do chão que você pisa, e eu não posso pisar. Enquanto você datilografa e traduz os poemas dos escritores franceses, eu olho paro os lírios, para o meu olhar refletido no espelho, e lembro a nossa primeira foto juntos. É horrível essa teia que foi tecida sobre nós, sobre o nosso amor. Para que música? Se tudo é oco sem você. O impulso vital não me parece necessário agora, já que não escuto mais o teu coração bater sobre os meus ouvidos, quando nos alinhavamos no sofá empoeirado da sala de estar. Corro para a janela, debruço-me sobre o parapeito, e fico esperando você chegar me trazendo o bolo de chocolate da sua avó, que me dizia que iria viver para ver o nosso casal de filhos crescerem. Mas é em vão, você está longe, e talvez não volte nunca mais. Continuo olhando a paisagem, o roseiral da vizinha, ah, o roseiral. Aquele mesmo que você roubava as flores e me dava todo dia quando vinha me ver. Na janela ainda estão às iniciais dos nossos nomes, que a chuva não conseguiu levar... Aperto minha mão contra o meu peito para não deixar você escapar, e sair de vez da minha vida. Deixo as minhas lágrimas espessas caírem, assim que começo a me lembrar do primeiro dia que você veio à minha casa no meio da tempestade de inverno, quase congelando, apenas para me dizer, aos prantos no meio da rua: "Haja o que houver, do outro lado do mundo eu irei cuidar, e amar você." O vento me traz sua respiração, e parece que você pressentiu entre os raios e o céu negro que iria me deixar. Tudo bem, meu coração foi com você. Nosso amor é feito sucessivamente entre tempestades, e entre uma ventania e outra você irá voltar para mim, para a nossa janela, o nosso sofá empoeirado, e os velhos lírios, que hoje refletem o meu olhar, e a minha saudade. De você, de nós, e das nossas inicias na janela, onde eu sinto a sua respiração vinda do hemisfério norte do mundo.
[Maria Isabel]
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