"As folhas já começaram a alcançar o chão, a força do vento vem aumentando, há neblina ao amanhecer. Equívocos colocam em evidência a presença do outono. É a minha estação preferida e pela qual tenho apresso imenso. Há certo tempo eu não reparava em questões como as mudanças de estações, a diferença das folhas, das flores, do tempo. Mas agora é diferente, algo mudou. Surgiu uma sintonia comigo e entre tudo ao meu redor. Tenho uma admiração enorme pelo outono. É um tanto mágico, assim, absurdamente lindo, doce, e com cheiro de terra molhada. Outono é a estação da paixão diluída com amor. É um tanto verídico pensar quando o vento esvoaça os cabelos: que uma brisa dessas traga um amor. Um amor que dure, um amor de verdade. Engraçado o outono chegou, mas dentro de mim, é inverno. Existe gelo aqui dentro, uma muralha, um sótão. Um abrigo que criei para me proteger. Foi necessário. Tantos fatos que já nem lembro mais. Acabei de terminar o meu Mestrado em “I don't care”. Suponho que tenha conseguido uma nota maravilhosa. Afinal, meses no sótão me tornaram uma pessoa mais realista, mais perceptiva. Testei antídotos que funcionaram, remédios milagrosos, imaginação fértil. Aprendi a lidar comigo mesma. Tenho orgulho disso. Alguns dias foram pesados, por fora havia chuva e dia nublado, tais dias que odeio. E por dentro também, frio e chuva, e gotas de água, e lágrimas, e angústia. Agora as folhas precisam cair para nascerem mais belas novamente. Penso que todos nós precisamos cair também para aprender a levantar, andar com as próprias pernas. Blindar o coração. Convém em certas ocasiões um pouco de desprezo, pois este economiza bastante ódio. Que nada permaneça estático, que exista o famoso impulso vital, a tal força interior, o coração como bússola. Avante o outono, enquanto espero nesse momento, no fogo o gelo queimar."
[Maria Isabel]
Nenhum comentário:
Postar um comentário