Os meus olhos quase entregues a penumbra avivaram-se repentinamente. Meus olhos, já cansados de partidas dolorosas, avistaram no fundo dos seus um brilho refletido, e seguiram os passos do seu olhar no meu, do eco no pequeno espaço entre nós. Assisti teus olhos entrarem nos meus, brincando com o gelo dentro de mim, e derretendo todo o medo, toda a angústia. Desacelerou meu relógio, fez meu coração bater rápido e lento ao mesmo tempo, e ainda por cima, possui o abraço mais terno do mundo. Gosto de falar de abraços, incontáveis, infindáveis abraços. Onde havia caixas espalhadas pelo chão, colocaste tudo no lugar quando sorriu para mim. E nem ao menos sabia que os meus olhos contemplavam o seu sorriso havia meses. Mas meus olhos cansados de procurar encontraram nos seus uma paz sem tamanho. Nossos olhos brincam e serpenteiam no espaço, emitem cores intensas, brincam de estrelinha enquanto o mundo gira em torno de nós. Estrelas caem ao nosso lado, cometas despencam, faróis acendem, navios chegam ao porto e nem nos demos conta. Eu olho para ti, você olha para mim. E nós ficamos nessa entrega doce, um mais bobo que o outro o tempo todo. Nós, insuportavelmente felizes, saímos mais bobos do que chegamos depois dos nossos encontros. Eu tropeço nas próprias pernas e o seu sorriso permanece de orelha a orelha. Te abraço forte, você nem pensa em ir embora só porque o fato de estar perto já é suficiente e palavras nem precisam ecoar. Em qualquer esquina as suas mãos seguram as minhas apertadas, e é seu o beijo de leve antes de atravessar a rua. Não olhamos para os lados, pois sabemos que podemos atravessá-la juntos, e não há objeto no caminho nem construção que impeça. Olho os seus olhos que dizem mais do que tudo, e você olha os meus que gritam em tua direção.
Essa minha mania de transformar vida em poesia se transpõe na calma e serenidade de ver seu rosto logo pela manhã, e não querer sair dos seus braços. E receber cada carinho seu como presente por ter alguém como você por perto, e juntar cada pedacinho seu, cada cheiro seu como recordação. E esquecer por todo o tempo do mundo como a minha tela estava cinza antes da sua aparição. E não querer mais nada que não seja o seu sorriso, e as suas mãos que tocam as minhas, os seus toques que acalmam o meu coração inquieto. Roubar o macarrão do seu prato, rir com você e os seus amigos, fazer bico, pedir cafuné, cair nos seus braços e encostar a cabeça no seu peito e ficar ali até o último segundo. E ninguém sabe o que se passa, pois somente eu e você sentimos e o mundo não precisa de tradução. No nosso lugar de sempre, o nosso encontro marcado, o seu beijo na ponta do meu nariz e o meu nariz que descobre a curva do teu pescoço. Meu bem, agora é meu o tom do seu sorriso. Agora é teu o som do meu riso.
[Maria Isabel]
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