segunda-feira, 7 de novembro de 2011

É quando respirar vira quase um suspiro de alívio e a vida devolve o sorriso como forma de retribuição por todo sofrimento.

Ultrapassado o limite de saturação e exaltado a linha tênue da paciência, era assim como se encontravam os sentimentos dentro de mim. Certos sentimentos que não iam embora. Não haviam encontrado a porta de saída, mesmo depois de tantas urgências emocionais. Mas já não era sem tempo. Consegui chegar ao ponto máximo da espera.
Se não tivesse tomado algumas providências, ainda estaria carregando pesos e dores desnecessárias. Aquela velha história de esvaziar as xícaras para provar novos chás entrou correndo até cair em minhas mãos. Olhei catatônica ao meu redor e vi o imenso porão, o sótão, todos os cômodos ocupados por extensões já esquecidas. Uns amontoados de coisas que já não me serviam mais, apenas deixaram de me doer e passaram a fazer parte do meu baú de memórias. Mas chega. Encerrou. Ponto final sem nenhuma reticência.
Olhei-me no espelho e vi mais uma vez a vida escorrer pelo meu rosto, manchando-o. Foi nesse momento que eu decidi. Decidi destrancar os cadeados, abrir as portas e retirar os móveis velhos, jogar fora os tapetes desalinhados, tirar a poeira dos lençóis e deixar morrer as plantas que restaram. Foi difícil demais desapegar do que quer que fosse. Mas eu consegui. Consegui por que perdoei o imperdoável. Forte e benevolente desejei a paz aos causadores das minhas dores. Maximizei os erros, interpretei-os e vi que não valia à pena. Nunca vale à pena dispor a vida a serviço de quem está só de passagem e dar abrigo no coração para donos de almas superficiais. Fiz uma faxina profunda, e só ficou aqui dentro quem vê fé e coragem no amor.
Chorei. Chorei muito, horas a fio. Derramei lágrimas pesadas por tudo, tudo mesmo. Eu precisava esvaziar. Produzi uma enchente com toda a água suja que ainda havia no meu coração. Joguei fora os últimos augúrios, as dores grudadas. Chorei até aliviar a sensação de desprezo e abandono. Cuspi violentamente a falsidade a qual fui submetida. Das vezes que acreditei em palavras pequenas vindas de pessoas vazias. Chorei pela minha fraqueza, pela minha tendência ao acaso e por não saber cuidar de mim. Chorei tanto pelo amor que dei e nunca me retribuíram, e se retribuíram, não foi suficiente. Tirei lágrimas de onde não existiam mais. Esvaziei os estoques, lavei a alma, purifiquei o meu coração.
Na manhã seguinte acordei leve. Despertei sem mais de longas, e percebi o bem que havia feito. Só conseguiria seguir em diante se fosse capaz de abandonar velhas preocupações que apenas traziam dores de cabeça. E perdoei tudo. Perdoei a mim mesma, sendo esse o primeiro passo. Eu precisava fazer isso. Eu precisava chegar ao fundo do poço para fazer a esperança renascer. E foi assim que ela ressurgiu. E me agarrei a ela, como um rebanho sedento por água. Porque de agora para frente, eu só aceito presenças e pessoas inteiras. Vou lutar por quem tiver similaridade de coração sempre cheio durante as quatro estações. Sem almas secas. Tendo em vista a purificação que fiz e as toneladas de porções indesejáveis que joguei fora. Eu quero viver dentro de mim sem me doer. Eu quero amanhecer e fazer sol onde estiver. Quero viver a vida em um lugar onde eu posso ficar do tamanho da minha paz e com a luz do sol como companhia em dias dourados. Ter a calma na alma para poder viver, é só o que me interessa.

[Maria Isabel]

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