Tem
dias que o coração da gente fica pequenininho a ponto de quebrar, cada palavra
parece uma arma, qualquer vento vem anunciando desmoronamento. Tem dias
que a dorzinha se aloja lá dentro, e o coração vai sendo comprimido,
comprimido, comprimido e de tanta compressão o vemos diminuindo aos poucos. Tem
dias que o coração não aguenta e a nossa vontade é sentar no primeiro
banco da praça e chorar, com as mãos no rosto, mas chorar até o coração
desinchar.
Tem dias que tudo
parece prestes a desmoronar. Incontáveis são as vezes que não sabemos lidar com
o que carregamos. Há dias que um olhar torto da nossa mãe, ou uma palavra
ríspida proferida por um estranho na rua causa uma mancha negra no meio do
peito. Dias pesados, horas que não passam. Já aconteceu muito enquanto eu
andava na rua ao pensar demais em situações que me amedrontam, e ter de segurar
bem forte o choro, quando o que eu queria mesmo era encontrar o lugar mais
seguro só para ficar sozinha e buscar algum consolo nas minhas lágrimas.
Porque é natural que
pensar demais nos faça criar problemas redobrados, mas quando temos noção da
complexidade toda, é aí que surge o medo, a incerteza, onde nenhum passo é
seguro. No meu caso, eu sempre gostei de ficar quietinha, no meu mundo, porque
tem coisas, que você sabe, só abrimos para o nosso coração (dessas coisas que
só existem respostas no interior). No geral, quando surge uma nuvem espessa
sobre mim, vou para o meu cantinho, e penso, repenso, trepenso. Eu me dou em
prosa, olho a situação com os únicos olhos capazes de enxergar, os olhos da
alma. Eu busco a calma, que acalma. Quando ficamos tristes o ideal é ficar
sozinho, sentindo ali, curando as feridas. Sempre me fecho no meu mundinho, e
rezo pedindo a Deus luz para iluminar o meu caminho.
Logo mais, compreendo que
dias cinzas são necessários, são nesses dias que reconhecemos a pequenez do
nosso coração, o quão frágil e quebradiço ele é, e são em dias como esse que
aquele calo no pé se torna uma ferida monstruosa.
Porém, assim como o sol
aparece a cada amanhecer, eu sei que o coração pode estar pequeno hoje, inchado
amanhã, estourar no outro dia, mas daqui a pouco ele volta ao normal, assim
como o sol volta no outro dia, a dorzinha vai embora e dá lugar a novos sóis, a
novos estágios multicoloridos do coração da gente.
É por isso que aparecem dádivas no nosso
caminho, onde podemos repousar a alma. Um telefonema, um abraço apertado em
quem amamos (que nos últimos dias vem salvado a minha sanidade), um carinho
durante alguns minutos, um desabafo amigo. É disso tudo que falo. Dos presentes
do nosso destino que tantas vezes nos salvam de nós mesmos.
Quando andamos em cima da
corda bamba aprendemos uma porção de coisas, que qualquer vento diferente
distorce uma rota por completo. Mas a vida dá um jeito de reorganizar tudo,
etiquetar, e embalar tudo em uma caixa para servir de lição no futuro.
Pois uma das piores dores
é ver quem amamos se doendo e quebrando em pedaços múltiplos, e mesmo assim ser
forte para ajudá-los a juntar os cacos. Eu espero que ambas as dores não durem
para sempre. Eu rezo pedindo luz e proteção para ter o coração repousando
sereno, sem dor alguma, e esperando, que assim como o sol, o coração amanheça
em paz amanhã.
[Maria Isabel]
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