Vendo as coisas desse estágio, avistando os impasses daqui
de cima, poderia nomear esse lugar de plataforma, do alto do penhasco, do ápice
da ponte. São milhões de palavras com as quais posso nomear esse lugar seguro,
onde posso contemplar a serenidade de tudo o que se passa lá embaixo, onde já
estive inserida.
Muitas vezes não entendemos os caminhos que se seguem, e eu,
particularmente, nunca soube lidar com partidas, nem me adequar a elas. Mas depois
de alguns congestionamentos, muitos impasses ficaram claros. Quando o sinal
verde abre, está aberta a passagem, e isso nós aprendemos quando estamos no
carro dos nossos pais. Como também descobrimos que o sinal amarelo anuncia
atenção, cuidado, quem sabe, insegurança. Mas o sinal verde neutraliza tudo,
mostra caminhos, traz de volta a esperança de atravessar distâncias. Não é de
se admirar a sua ligação em sentido amplo. Tem vezes, que a vida mostra a luz
vermelha, mas por mero orgulho ou descaso não a enxergamos, ou fingimos não há
ver, porque dá um trabalho danado ignorar o caminho que havíamos escolhido e colocar
na mala os pensamentos, os sonhos, encaixotar os planos ao analisar os sinais. Eu,
por exemplo, quis fechar os olhos muitas vezes para não mudar de rumo. Entretanto,
o sinal vermelho não adianta mais, passa a existir o amarelo, o cuidado se
fazendo presente. Na expectativa que o cérebro fique atento à idéia do perigo,
da fuga, do impasse. Tem dias que a cabeça vai dormir inquieta, pois são
incontáveis os monstros, os medos. Mas é a luz na janela durante a madrugada
que determina o sinal do próximo dia. Pois tudo fica claro quando olhamos para
dentro e ouvimos o silêncio ecoando, ao responder as perguntas ocultas. No
outro dia aparece o sinal verde, digo esta cor, pois sempre apareceu para mim,
quando me via inconsolável diante de situações aleatórias e que sempre me
faziam mal. Mas quando fechamos os ouvidos e os olhos para o que vem de dentro,
é habitual que a luz amarela ainda insista. Mas garanto que nada ensina mais do
que os dias, e com eles o sinal verde simplesmente aparece.
E são nesses dias aonde tudo vem à tona. Quando o imaginável
se torna real. São em horas impróprias para nós, mas necessárias para o
universo, que descobrimos a hipocrisia mascarada em palavras falsas. Nas
atitudes desgovernadas de quem não sabe o que é o amor, nelas mesmas,
percebemos a ausência de caráter nos sentimentos menosprezados, nos egos
inflamados, nas mentiras encurraladas na garganta, a sujeira que cada um
carrega consigo, a vitalidade corrompida. Entre tantos rostos sujos, por trás
deles, há a falta de humanidade, e o excesso de covardia.
Daqui do alto, onde a serenidade me alcança, e me faz
enxergar tudo em segundo plano, em um plano onde só a coragem de ser alguém de
verdade e sem precisar de apoios e pessoas para demonstrar isso. De tantos
desencontros, de tantas velocidades nas estradas, acabei aprendendo a
necessidade de perder, e ao mesmo tempo, quando perdemos algo, e grave isso, é
porque era preciso. Ao demonstrar como o leve impasse já não é mais imutável,
mas agora, queria lembrar sempre, onde for, quero coragem, quero verdade, e
acima de tudo, hoje creio na importância de ler os sinais da vida. Agradeço
algumas partidas que na hora exata não compreendi. Mas analisando as voltas que
a vida dá, agradeço de todo o coração à oportunidade de ter tido perdas, que se
transformaram em dor para que eu pudesse chegar até aqui e aprender que tudo na
vida é aprendizado, e mais do que isso, o cinismo de quem nada acrescenta só
traz embrulho no estômago e enjôo na alma. Pode parecer simples, mas quando o
sinal verde abre, é como se a pomba no sinaleiro aparecesse e iluminasse o
sinal de trânsito. Pois ver os sinais de perto, e acreditar que algo bom virá
torna-se necessário. E logo vem, pois a vista é surpreendente, e nesse caso,
deslumbrante. Se assim como eu, todos tivessem a felicidade ao alcance das
mãos, onde um abraço fosse resposta para todos os choros durante os cruzamentos
perigosos da estrada. Pois onde existe amor, há coragem para seguir em frente
com alguém de verdade que não ache normal essa história de desvios de sinais,
pois quem ama, permanece e assiste ao lado, deslumbra a mesma vista daqui da
plataforma.[Maria Isabel]
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