"Entre ela e os objetos havia alguma coisa, mas quando agarrava
essa coisa na mão, como a uma mosca, e depois espiava, - mesmo tomando cuidado
para que não escapasse – só encontrava a própria mão, rósea e desapontada. Sim,
eu sei o ar, o ar! Mas não adiantava, não explicava. Esse era um de seus
segredos. Nunca se permitia contar, mesmo a papai, que não conseguia pegar “a
coisa”. Tudo o que mais valia exatamente ela não podia contar. Só falava
tolices com as pessoas. Quando dizia a Rute, por exemplo, alguns segredos,
ficava depois com raiva de Rute. O melhor era mesmo calar. Outra coisa: se
tinha alguma dor e se enquanto doía ela olhava os ponteiros do relógio, via
então que os minutos contados no relógio iam passando e a dor continuava
doendo. Ou senão, mesmo quando não lhe doía nada, se fica defronte do relógio
espiando, o que ela não estava sentindo também era maior que os minutos
contados no relógio. Agora, quando acontecia uma alegria ou uma raiva, corria
para o relógio e observava os segundos em vão."
[Perto do Coração Selvagem - Clarice Lispector, li e adorei, recomendo]
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