Parei um pouco para
pensar nas loucuras de amor que eu seria capaz de cometer. De súbito nenhuma se
apresentou em minha mente. Precisei ir mais fundo e tomar coragem para embarcar
nessa viagem, não planejar roteiro nem nada. Mas antes, averigüei e tive certeza.
O amor em si já é uma loucura. Engana-se quem pensa que casamento é a prova da
falta de sanidade no mundo, pois não é não, casamento é enlace afetivo, para
outros é burocracia.
Agora, veja bem,
presta atenção, acompanha o raciocínio. Não é fácil encontrar alguém disposto a
ocupar espaço dentro do coração. Considero absurdo, mas há milhares de pessoas
que não querem amar, onde o coração apenas possui grade e cadeados. Amar é um
ato corajoso. Você conhece a pessoa, e segue-se a sucessão infinda dos sintomas
da paixão que desde a Grécia Antiga é descrita, e desconfio eu, talvez já
tivessem tentado traduzi-la em pinturas rupestres na época das cavernas.
Um jardim de flores
é aberto no coração. E nós nem percebemos quando, em qualquer dia que pode ser
chuvoso ou ensolarado, nós simplesmente tiramos o nosso coração da gaveta,
aquele coração há tanto ou há pouquíssimo tempo guardado, e o entregamos,
colocamo-os nas mãos daquele ser para o qual cada fagulha do amor guardado em
nós transcende. Pode ser perigoso, mas o amor não pergunta posso entrar ou tem
lugar para mim. Ele simplesmente chega e invade. Esse é o risco que corremos.
Nunca somos capazes de prever o que há do lado de lá, não existe prova real que
mostre se fizemos a escolha certa. É como entregar um tesouro para alguém e não
saber se por detrás dela existe um ladrão que partirá ao ver o trem chegando à
estação, ou alguém que permanecerá durante as tempestades da vida como uma
fonte de confiança infindável.
Baseados nesses
aspectos as pessoas acabam fechando-se em si mesmas e deixam o amor passar
acumulando poeira na estante. Dizem que querer segurar a mão de alguém não por
companhia, mas por ter no outro um santuário de afeto é loucura. Discordo com
todas as minhas células. Isso se chama falta de coragem e fé no amor.
Sou toda amor. Cada
pedacinho meu é preenchido desse sentimento como seiva em plantas. Amor que meu
pai me deu quando me carregava até a cama, quando eu adormecia em seu colo, e
pelo amor que minha mãe me transmitiu assim que me viu pela primeira vez. Sou
romântica ao extremo. Sou apaixonada por corações, quero uma tatuagem deles
algum dia, choro ouvindo o Leoni cantar, e choro ouvindo os Beatles brilharem
com And I Love Her. Quero dançar com o amor da minha vida ao som de River Flows
in You, do Yiruma, de rosto coladinho, em um lugar lindo e cheio de luz com a
lua como companhia. Amo renda e flores. Sou apaixonada por romances. Quem me
tira e me afunda na fossa, é e sempre será o gauchinho de Santiago do Boqueirão.
Emociono-me vendo filmes românticos. Sou toda sorrisos para abraços e beijos
demorados. Quero ter seis filhos. Ter uma casa com varanda branca cheia de
flores para tomar chá com meu amor, ambos de cabelos brancos, rodeada de netos
e com cheirinho de bolo de chuva no ar. Não acho nada cafona dar rosas, e sim
um gesto de cavalheirismo, mesmo sendo poucos e raros os que ainda fazem isso.
Demorei-me bastante
para chegar onde queria, mas é que o danado do amor mexe comigo. Apenas conheço
uma loucura no quesito amor. E essa não tem nada haver com tatuar o nome da
pessoa amada no corpo, nem casamento, nem auto-falante, muito menos se jogar de
uma ponte para mostrar o mesmo. A maior loucura de amor é partir. Abrir mão
daquilo que faz o nosso coração vibrar. Pode parecer bobo, mas requer coragem.
É deixar quem amamos se despedir de nós, ver o outro arrumando as malas na
nossa frente e não fazer nada. Loucura é ir embora quando se quer morar dentro
de um abraço para sempre. Isso testa a sanidade mental. É saber que por mais
doloroso que seja aceitar que o outro precisa ir, e mesmo sabendo o buraco
enorme que isso fará, deixa-lo ir, pois nada mais importa do que ver o viajante
feliz e com um sorriso no rosto mesmo sem você. Loucura é pegar a estrada sem
direção quando as coisas ficaram difíceis, é não lutar, não persistir, por puro
comodismo. Isso é loucura, partir em si é algo fora dos limites. Mas quem ama
olha de longe, ri com uma dorzinha no peito, e pede de longe para que quem vá
seja feliz onde quer que esteja. Deixar ir embora para o bem do outro, mesmo
custando a nossa felicidade. Considero-a loucura, mas de fato, é um gesto de
amor nobre em um mundo que precisa ser lembrado o tempo todo em letras grandes
que ainda existem pessoas capazes de amar e serem amadas, em completa loucura.
Com completo amor. Sim, essa é uma loucura de amor, que nunca mais, quero
repetir.
[Maria Isabel]
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