sábado, 26 de março de 2011

Acho que tenho um sentimento perdido lá dentro.

Mamãe disse que eu estava doente. Tudo o que toquei, quebrou. Tudo o que guardei, perdi. Tudo que era preciso lembrar, esqueci. Nem fui ao médico. Mamãe é de veras precipitada. Mamãe ainda não entendeu, quando fico quieta demais, calada demais, é o momento perfeito para matar os meus fantasmas. Quando me isolo, é a oportunidade de entender o que sinto. Mamãe e nenhum outro ser vivo podem interromper o meu processo, só meu, de ficar de boca fechada, e a cabeça rodando, rodando, rodando, e as coisas girando, girando, e os sentimentos sofrendo metamorfose instantânea. Diagnostiquei o meu problema: pedra no rim. Fiz a dedução da fórmula sozinha. Não fiz raios-X, mas sei que não é uma pedra grande, é uma pedrinha, no diminutivo. Já passou do ponto de saber o que tenho. Pedrinha que logo vai sumir. Mamãe aposta em chá mate, cidreira, macieira, laranjeira. Um monte de eira, sem eira nem beira. Nem sou médica e sei o que é preciso. O único remédio é o tempo. Essa pedra já foi maior, muito maior. Antes era pédrão, agora é pedrinha. Considero isso uma evolução. Logo mais serão farelos. Fui deixando ela se dissolver, quebrar-se aos poucos. Permiti que o vento a esculpisse. Alguns óxidos foram a corroendo. Ô pedrinha forte, que volta e meia quer ser o que não deve. Essa pedrinha é macabra, já me deu tanto trabalho, e tantas coisas para lembrar... E mais um milhão de memórias para esquecer. Mamãe insiste que eu tome chá. Eu só olho o relógio. Já viu matar erva daninha assim que ela nasce na plantação? Já viu um furacão parar no meio da sua formação? Já sentiu a água do mar doce? Já viu planta carnívora viver só de seiva? Já viu o sol parar de brilhar?Já viu o amor morrer tão fácil, e em tão pouco tempo? Eu não.

[Maria Isabel]

Nenhum comentário:

Postar um comentário