domingo, 2 de dezembro de 2012

Embora venham ventos contrários


 Quem inventou a dor faça o favor de explicar por que ela há de viver em linha tênue com o amor. Sinto-me em um naufrágio em uma noite completamente escura e sem estrela alguma no céu, a água é cortante e cada pedaço do corpo, da mente e da alma doem. Doem como uma ferida exposta sem previsão alguma de cicatrização. Olho para o lado e encontro você, com uma das mãos segurando a minha e a outra segurando um bote, que dê longe se vê que é frágil demais para nós dois. Mas você continua aqui, amortecido pelo frio, pela dor, e pela angústia de assistir um amor tão profundo sem espaço para existir, dois corações tão gigantes contorcidos pelo desespero de não ter para onde ir para amar até o fim.  
   Ouço você murmurando que está remando, remando, mas o remo bateu em uma pedra que encontrou pelo caminho... Te peço perdão repetidas vezes por vir remando tão mal há tanto tempo, por não ter acertado a direção do remo antes de entrar no nosso bote, por querer ter você e haver um abismo enorme, ondas altas demais, perdas irreparáveis. Tento disfarçar o tremor das minhas pernas por causa do frio no oceano, e escondo as minhas lágrimas com as gotas de água da garoa que começa a cair. Mas você me conhece bem demais para acreditar nessas duas últimas suposições.
   As ondas suaves da beira-mar empurram o nosso bote para a areia, encontramos o olhar um do outro olhando aquele ponto em que a espuma branca chega até o seu lugar e volta de mansinho ao mar. Você não diz nada e nem eu me atrevo a dizer que o amor deveria ser calmaria como aquelas ondas rasas que vem e voltam tranqüilas para o mar, pois lá é onde encontra morada para sua existência.  Só murmuro palavras desesperadas e como um mantra repito que um relacionamento entre duas pessoas que se amam deveria ser a maior fonte de alegria desse mundo. Nenhum tesouro já encontrado nesses oceanos poderia ser maior do que dormir e acordar ao seu lado, olhar você dormindo, adormecer seu coração com um cafuné, fazer café e algumas torradas para se apreciar na cama antes do começo de um novo dia. Ouvir a voz e o sorriso que confortam toda e qualquer mágoa adquirida ao longo do dia. E agora, e todos esses sonhos não realizados? Será que eles vão voltar pra gente algum dia? Porém tudo isso fica preso ao impasse de acordar no meio da noite com vontade suficiente para ligar e apenas dizer me empresta o teu peito porque a dor não está cabendo só no meu. 
   Ancoramos nosso bote na areia, andamos um pouco até encontrar madeira suficiente para fazer nossa fogueira. Sentamos ali e me aconchego nos seus braços como se fossemos as duas últimas pessoas no mundo tentando salvar uma a outra para salvar tudo o que existe entre nós. Sinto vontade de correr com o coração aberto como se a existência do mundo dependesse dos meus pés, mas esqueço de explicar que antes de qualquer coisa, quem me segurou firme no bote é o mundo com tudo dentro para mim. Você não me chama de louca, neurótica, boba ou qualquer outra coisa que eu mereça. Você apenas segura minha mão e não vai embora, e eu sinto e lhe digo repetidas vezes que você a melhor pessoa do mundo. Coloco-me a caminhar com você ao amanhecer, porque o caminho da luz e da alegria é duro e comprido demais para trilhar e impossível de encontrar sem você. 

[Maria Isabel]

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