Quem
inventou a dor faça o favor de explicar por que ela há de viver em linha tênue
com o amor. Sinto-me em um naufrágio em uma noite completamente escura e sem estrela
alguma no céu, a água é cortante e cada pedaço do corpo, da mente e da alma
doem. Doem como uma ferida exposta sem previsão alguma de cicatrização. Olho
para o lado e encontro você, com uma das mãos segurando a minha e a outra segurando
um bote, que dê longe se vê que é frágil demais para nós dois. Mas você
continua aqui, amortecido pelo frio, pela dor, e pela angústia de assistir um
amor tão profundo sem espaço para existir, dois corações tão gigantes
contorcidos pelo desespero de não ter para onde ir para amar até o fim.
Ouço você murmurando que está remando,
remando, mas o remo bateu em uma pedra que encontrou pelo caminho... Te peço
perdão repetidas vezes por vir remando tão mal há tanto tempo, por não ter
acertado a direção do remo antes de entrar no nosso bote, por querer ter você e
haver um abismo enorme, ondas altas demais, perdas irreparáveis. Tento
disfarçar o tremor das minhas pernas por causa do frio no oceano, e escondo as
minhas lágrimas com as gotas de água da garoa que começa a cair. Mas você me
conhece bem demais para acreditar nessas duas últimas suposições.
As ondas suaves da beira-mar empurram o
nosso bote para a areia, encontramos o olhar um do outro olhando aquele ponto
em que a espuma branca chega até o seu lugar e volta de mansinho ao mar. Você
não diz nada e nem eu me atrevo a dizer que o amor deveria ser calmaria como
aquelas ondas rasas que vem e voltam tranqüilas para o mar, pois lá é onde encontra
morada para sua existência. Só murmuro
palavras desesperadas e como um mantra repito que um relacionamento entre duas
pessoas que se amam deveria ser a maior fonte de alegria desse mundo. Nenhum
tesouro já encontrado nesses oceanos poderia ser maior do que dormir e acordar
ao seu lado, olhar você dormindo, adormecer seu coração com um cafuné, fazer
café e algumas torradas para se apreciar na cama antes do começo de um novo
dia. Ouvir a voz e o sorriso que confortam toda e qualquer mágoa adquirida ao
longo do dia. E agora, e todos esses sonhos não realizados? Será que eles vão
voltar pra gente algum dia? Porém tudo isso fica preso ao impasse de acordar no
meio da noite com vontade suficiente para ligar e apenas dizer me empresta o
teu peito porque a dor não está cabendo só no meu.
Ancoramos nosso bote na areia, andamos um
pouco até encontrar madeira suficiente para fazer nossa fogueira. Sentamos ali
e me aconchego nos seus braços como se fossemos as duas últimas pessoas no
mundo tentando salvar uma a outra para salvar tudo o que existe entre nós.
Sinto vontade de correr com o coração aberto como se a existência do mundo dependesse
dos meus pés, mas esqueço de explicar que antes de qualquer coisa, quem me
segurou firme no bote é o mundo com tudo dentro para mim. Você não me chama de louca,
neurótica, boba ou qualquer outra coisa que eu mereça. Você apenas segura minha
mão e não vai embora, e eu sinto e lhe digo repetidas vezes que você a melhor
pessoa do mundo. Coloco-me a caminhar com você ao amanhecer, porque o caminho
da luz e da alegria é duro e comprido demais para trilhar e impossível de encontrar sem você. [Maria Isabel]
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