domingo, 9 de junho de 2013

Pra ti que me ensinou que a poesia prevalece, Anitelli

Fernando, alguns dias são mais felizes que os outros, mas sabe-se que é verdade sobre a sorte quem sabe vir em um realejo, nos trazendo o pão da manhã, a faca e o queijo. Mas essa noite acordei assustada no meio dos meus pesadelos e insetos interiores, pedindo à pedra mais alta que regasse a minha alma e rogasse a calma em minha travessia. Eu sei, você já havia me dito que não há de ser nada, pois sabemos que a madrugada acaba assim que a lua se põe.
Vai dizer que nossas preces não alcançaram o céu? Acredito, acredito que tenham alcançado o céu, pois sei que entre as luzes apagadas nas ruas mais diversas desse mundo tem gente rezando no escuro, e mais ainda, tem gente sentindo ausência. Quem poderia dizer que essa palavrinha, ausência, doesse tanto aqui na Terra. Lá vem você de novo me acalmando com essa sua canção feito um mantra em nossas vidas. Sim, concordo com você, certo é estar perto sem estar, sou tão perto de você, mas é que quando começa o frio dentro de nós, tudo em volta parece tão quieto, tudo em volta não parece perto. Afinal, como é doce a dor da palavra dita de tão longe.
E se eu te contar que sonho é uma coisa que fica dentro do meu travesseiro, você vai rir de mim? O Seu Zé da padaria, mais uma criança de oitenta anos nascida faz tempo, me disse que eu não deveria me doer tanto por dentro, mas me aconselhou a ir à luta para que os milagres que tanto quero aconteçam. Fernando, cada sorriso e palavra de amor são como um soprano, uma borboleta que parece flor, uma mordida que parece carinho.
Fernando, vê se pode, o moço do coração mais generoso do mundo e dono do meu coração também disse que muda os planos dele pra não me machucar, e com vergonha nos olhos disse baixinho: cê me inspira pra eu te respirar. Lembra quando te contei que eu não sabia na verdade quem eu sou? Esse moço há um bom tempo coloca os meus medos para dormir, ele me mostrou que eu não sou sozinha nesse mundo. É verdade, ele cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser e enquanto fujo. É óbvio que não me esqueço dos seus olhos nem por um minuto, eu sempre deixo o sorriso dele na estante para eu ter um dia melhor. Mas ele é um pouco louquinho, disse que vai guardar minhas cores, minha primeira blusa de lã e disse até que vai me casar com ele. Vou te contar um segredo, escrevi um bilhete e escondi na carteira dele: sei nosso primeiro abraço, sei nossa primeira dor. Menino, guardo você comigo.
Do que você tanto ri com esse violão nas mãos? Sei bem que você é um homem todo pintado de piadas. Você já olhou pela janela hoje? Engraçado, sol e chuva, casamento de viúva. Não Fernando, eu gosto muito de falar sobre o tempo, pois lá fora podem haver dias ensolarados, mas aqui dentro, chove e faz frio. Claro, já entendi, toda cura pertence a nós e além do mais que a regência da paz sirva a todos nós.
Mas agora é a minha vez de falar. Só queria dizer obrigado, por ter permanecido no meu subconsciente e no meu coração e me lembrado, sobretudo nos dias difíceis, que todo sopro que apaga uma chama reacende o que for pra ficar, assim como por onde entrei deve haver uma saída, pois tudo fica sustentado pela fé. Mesmo que nem eu nem você nem ninguém nesse mundo saiba, na verdade, porque a gente nunca sabe de quem vai gostar. Quando eu encontrar a Ana na beira do mar pode deixar que pergunto pra ela.
         Fernando, confio em você, e sei que tudo o que eu criar pra mim vai me abraçar de novo na semana que vem. Agora, senta aqui do meu lado e olha para esse céu azul, esse mesmo o telhado do mundo inteiro. Olha o mundo ficou mais bonito desde que você disse que a poesia prevalece e plantou aqui em nossos corações essa ideia de que somos semente do que ainda virá. Antes de você afinar seu violão, e ir encher de paz e serenidade o coração de muitas pessoas, lembre-se de uma coisa: enquanto houver você do outro lado, aqui do outro eu consigo me orientar, e já que o fim é belo e incerto, quero que saibas que só enquanto eu respirar vou me lembrar de você.

[Maria Isabel]


*Fernando Anitelli - O Teatro Mágico

Nenhum comentário:

Postar um comentário