sábado, 1 de junho de 2013

Antes que o relógio de areia encerre-se

Qual é o tempo entre a chegada e a partida de um trem na estação? Quantos segundos são necessários para que o vento carregue a folha de uma árvore até o chão? Quantos apertos de mão, abraços e beijos são dados ao redor do mundo durante um minuto? E por fim, qual é o tempo que ainda resta para que eu consiga ser tudo aquilo que ainda não fui e quis ser para alguém?
            Abro uma caixinha e deposito ali um relógio, mas meu corpo inteiro dói quando ouço o tic-tac que ele faz. E nesses dias cinzas em que o vento frio congela tudo aqui dentro, torna-se tão perene a tristeza e o eco da solidão que ecoa por todos os lados, mesmo se eu estivesse no meio de uma avenida movimentada.
            Repasso a história pela milésima vez, e encontro-me sentada com as mãos desoladas pensando em tudo o que poderia ter feito e não fiz, em tudo o que poderia ter sentido e não senti, em todos os momentos felizes e singelos que poderia ter transmitido e não transmiti. Será que ainda tenho esse tempo para desperdiçar? E o peso da sua saudade, da dor, da sua ausência e do meu coração com uma tonelada de tristeza, amor, sonhos e esperança, onde, afinal, guardarei?
            Sinto-me como um réu em um tribunal, no meio do júri sendo julgada pelos crimes que eu, infelizmente, não cometi. Esse sim um crime inafiançável.


[Maria Isabel]

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