quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Ao fim de tudo, em paz

Enquanto eu lavo a louça e canto distraidamente uma daquelas canções de fim de tarde, observo pela janela aquele menino loirinho que teima em não segurar a mão de sua mãe ao atravessar a rua. E de repente saio de meus devaneios tolos quando escuto a porta do apartamento abrindo, e aquele inconfundível barulho das chaves ecoarem.
- Desculpa não bater na porta antes de entrar, eu sempre esqueço. Vim aqui porque você esqueceu suas chaves, que você me deu, que eram nossas, mas não sei mais.
- As chaves das nossas vidas você quer dizer. Você sabe, a porta do meu apartamento sempre foi sua.
- Você nunca encontrava as suas chaves dentro da bolsa depois de ter bebido umas duas cervejas (o que já serve pra te deixar mais pra lá do que pra cá), quando a gente chegava tarde aqui no prédio. Aí tomei a liberdade de ter chaves só pra mim. Mas agora, são suas.
- Esqueci de dizer que não precisa me pedir desculpas.
- Eu só vim devolver as chaves mesmo, porque eu sabia que você não ia lembrar-se delas.
- Falando em lembrar, vai lá na cômoda do quarto, segunda gaveta, seu álbum de fotos e seu discman estão lá. Agora foi você quem se esqueceu deles.
- Queria esquecer essas coisas que a gente carrega por dentro com a mesma facilidade que esqueço que tem muitos pedaços meus perdidos nesse apartamento.

(e por um momento mordo os lábios pra não dizer que tem mais pedaços seus dentro de mim do que nesses cômodos de paredes lilás)

- Ah, eu to indo. Fica bem, qualquer coisa me liga, minha mãe mandou um beijo.
- Esqueci de novo. Marquei aquela consulta para a sua mãe quarta-feira, fiz um drama e disse que era urgente. Não se esqueça de avisar ela. E vê se fica bem você também, deixei seu casaco azul no cabide do seu guarda-roupa, procura com cuidado que você acha. Só não se esquece de usar ele nos dias frios.
      Assisto você ir embora com seu andar de menino calmo, deixar as chaves da nossa vida em cima da minha mesa de centro, que você trincou quando tentava me ensinar jogar Guitar Hero de madrugada, naquela tentativa de silêncio inútil para não acordar os vizinhos. Escuto o mesmo barulho dos seus passos que tantas vezes esperei voltar a ouvir nos últimos meses. E assim você foi embora, mesmo que definitivamente. E nem se quer deu tempo de lhe dizer que eu voltei a comer direito, as três refeições e até engordei um pouquinho. Acho que você  também ficaria feliz ao saber que consegui voltar a ouvir aquele álbum do Pink Floyd, o meu preferido e que me lembra você, mas dessa vez, sem chorar. 

[Maria Isabel]

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